Campanha ataca líderes do varejo na Argentina

Ativistas políticos que apoiam o governo da Argentina aumentaram a pressão sobre os varejistas do país de um modo bastante pessoal na sexta-feira: espalhando por Buenos Aires cartazes com fotos de executivos de grandes redes de varejo e os acusando de alimentar a inflação que o governo está penando para combater.

Os cartazes com fotos de executivos das filiais argentinas do Wal-Mart Stores Inc., Carrefour SA e outros varejistas foram pregados em muros, pontos de ônibus e bancas de jornal por toda a capital.

“Esses são os que roubam seu salário”, diziam os cartazes. “Aumentam o preço de tudo para ficar com seu dinheiro.” As empresas não quiseram comentar sobre os cartazes ou não retornaram ligações.

Os cartazes foram criados pela Unidos e Organizados, um grupo de jovens politicamente ativos e leais à presidente Cristina Kirchner, que exortou os argentinos a colaborar com o governo denunciando preços abusivos e impedindo que as pessoas comuns sejam “roubadas”. Duas semanas atrás, o governo desvalorizou o peso, dando impulso à inflação e levando muitas empresas a reajustar preços em 20% ou mais.

A campanha dos ativistas é um sinal de como a Argentina está determinada a continuar usando métodos cada vez mais incomuns no combate à inflação. Ela ocorre num momento em que o governo também se afasta ainda mais das políticas econômicas tradicionalmente recomendadas pelo Fundo Monetário Internacional, que censurou a Argentina por publicar dados não confiáveis de inflação.

“A presidente pediu ao povo para pressionar os empresários que aumentarem os preços, então esses cartazes não são uma surpresa”, diz Nicolás Solari, analista político da Poliarquía, uma firma argentina de pesquisas. “Isso passa uma mensagem horrível para a comunidade empresarial e não deve resolver positivamente nenhum problema econômico. É um sinal da fraqueza do governo na questão.”

A Argentina não é o único país da América Latina que está reprimindo varejistas. Na Venezuela, as autoridades anunciaram a mobilização de centenas de fiscais para garantir o cumprimento de uma nova lei criada para impedir que as empresas segurem estoques, aumentem preços ou obtenham margens de lucros acima de 30%. Os venezuelanos estão às voltas com uma das taxas de inflação mais altas do mundo, de 56,2% ao ano.

A Argentina registrou uma inflação perto de 30% em 2013, a segunda mais alta da América Latina, de acordo com economistas não ligados ao governo, e muitos preveem que ela pode atingir 40% este ano. Eles culpam as impressões de dinheiro do governo para financiar programas públicos cada vez mais amplos, além de subsídios volumosos para combustíveis e transportes.

Na sexta-feira, porém, o chefe do gabinete de Kirchner, Jorge Capitanich, atacou economistas e analistas por atribuírem a inflação às políticas econômicas do governo. Ele comparou os economistas com mercenários a serviço de interesses do setor privado que estariam tentando desestabilizar a economia.

“Conheço todos eles”, disse Capitanich. “São todos agentes camuflados. Os argentinos devem saber que economistas objetivos e independentes não existem. Quero dizer enfaticamente que quando empresários inescrupulosos sobem preços, isso não tem absolutamente nada a ver com variáveis macroeconômicas.”

Num dos cartazes distribuídos na sexta-feira, Horacio Barbeito, diretor-superintendente do Wal-Mart na Argentina, é identificado pelo seu nome em letras maiúsculas e seu cargo, que aparecem sob o título “Conheça-os”.

Outro cartaz mostra Daniel Fernández, diretor-presidente da filial argentina do Carrefour, olhando para baixo com o logotipo da empresa atrás dele. Acima da foto estava escrito que ele, também, vem “roubando” o salário dos argentinos.

Em janeiro, os varejistas concordaram em congelar os preços de cerca de 200 produtos que iam de detergentes a preservativos. O governo criou um número para o qual as pessoas podem ligar gratuitamente para denunciar o que autoridades consideram aumentos abusivos de preços. Há ainda um aplicativo para smartphones que permite aos consumidores escanear os preços e enviá-los às autoridades, outra ferramenta do governo para angariar a colaboração da população na vigilância contra preços altos.

Na semana passada, Kirchner chegou a ligar para uma moradora da cidade de La Plata, Romina Ivonne, para parabenizá-la por ter denunciado o que considerou preços injustos numa loja local do Wal-Mart.

Durante anos, o governo vem sustentando que a inflação anual no país é de apenas 10,9%, a taxa oficial.

Ao mesmo tempo, as autoridades ameaçam multar e até mesmo fechar qualquer empresa que reajuste preços. “Acreditamos que com ajuda de todos e uma atitude firme, cada argentino vai defender a sua renda”, disse Capitanich na quarta-feira. “E isso significa denunciar empresários inescrupulosos que aumentam preços sem razão.”

Por: WJS

 

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